Vila Velha: O assassinato que mudou Angra de lugar
O ASSASSINATO QUE MUDOU ANGRA DE LUGAR
Vila dos Reis Magos da Ilha Grande, 1617. O capitão Manuel Antunes mandou chamar o pároco Luiz dos Santos Figueira para confessar um “supposto enfermo”. Embarcaram numa canoa rumo à Ponta da Cruz. No caminho, o padre foi atingido por uma lança — arpão, na tradição local. Semivivo, o religioso foi amarrado a uma pedra e lançado ao mar. Os remeiros da canoa viram tudo. A reconstituição é baseada no texto de Honório Lima, comandante-geral do Corpo Policial da província, em 1889, com documentos da Câmara e do convento.
Segundo o autor, três dias depois, um pescador fisgou um pedaço da batina do pároco; um mergulhador achou o corpo preso à pedra. O crime foi descoberto; a punição, não: “não foi castigado — ao menos não consta officialmente pela Justiça local”.
O motivo não se crava. Honório falou numa “questão íntima de família”: “levado a deshonra ao leito conjugal do seu assassino”. O cronista franciscano Frei Miguel de São Francisco (séc. XVII, Livro do Tombo do Convento de São Bernardino) escreveu que o vigário foi morto por censurar a vida licenciosa dos moradores — versão retomada por Alípio Mendes. Não há processo nem sentença.
A punição recaiu sobre a vila. O Prelado do Rio decidiu não nomear outro pároco enquanto existissem ali descendentes do assassino. Consta que a vila passou sete anos sem pároco; os moradores procuraram outro lugar e, “abandonada a que elles julgavam excommungada”, mudaram-se para as proximidades do Convento do Carmo — onde hoje é o centro de Angra.
A mudança foi conduzida pelo capitão-mór João de Moura Fogassa e pelos carmelitas, que prometeram obter do bispado um pároco colado — nomeado só em março de 1626. Em 2 de outubro de 1624, os moradores fundaram a nova Vila dos Santos Reis Magos da Ilha Grande. A aprovação oficial veio em 13 de fevereiro de 1625. A matriz começou a ser levantada em 1626 e ficou pronta em 1750.
A vila nova prosperou: em 1687, as Notícias do Bispado do Rio de Janeiro registravam 152 fogos e 606 pessoas de comunhão. O local ficou com o nome que a mudança lhe deu: Vila Velha. Hoje é um bairro da Estrada do Contorno, onde a Praça 6 de Janeiro guarda o marco de fundação.