Quem foi o primeiro “dono” da Ilha Grande?
Depois do Descobrimento, a Coroa portuguesa passou a distribuir terras a quem se comprometesse a colonizá-las: as sesmarias, regra que em Portugal vinha de uma lei de 1375 contra a terra abandonada. Doar custava nada ao rei e prometia dízimo. O papel tratava a terra como se não houvesse ninguém nela. Não era o caso.
A Ilha Grande era território tamoio. Em carta de 9 de julho de 1565, o padre José de Anchieta chama os tamoios de “senhores da Ilha Grande”. Em 1587, Gabriel Soares de Sousa, autor do “Tratado Descritivo do Brasil”, escreve que eles senhoreavam a costa “até a Angra dos Reis” e que suas aldeias eram “mui fortificadas com grandes cercas de madeira”.
Ainda assim, para transformar a ilha em engenho de açúcar, o donatário de São Vicente, Martim Afonso de Sousa, assinou em Lisboa, em 24 de janeiro de 1559, uma carta de sesmaria dando a ilha inteira e “as águas da dita ilha” ao chanceler-mor e desembargador do Paço, Vicente da Fonseca, “morador em Lisboa”, “para poder fazer engenho nela”.
Vicente da Fonseca nunca tomou posse: não há registro de que tenha vindo ou mandado alguém em seu nome. Pela lei, terra sem cultivo no prazo legal caducava e voltava a ser considerada “devoluta”. Para não perder o título por abandono, o influente desembargador conseguiu que a Coroa renovasse a doação duas vezes, em 1573 e 1575. Em 1587, Gabriel Soares de Sousa já o dava como morto, registrando que a ilha “se deu de sesmaria a um desembargador que é falecido, e não a povoou”.
A ocupação formal da Ilha Grande só começou a sair do papel a partir de 1725, quando o foco de Lisboa mudou: já não era apenas uma questão de povoar a terra, mas de fechar a costa ao contrabando de ouro e barrar piratas estrangeiros.
O primeiro “dono” da Ilha Grande, em 1559, foi uma assinatura no papel. Os donos de fato já estavam lá, e não foram consultados.
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Fontes: Pedro Taques, “História da Capitania de S. Vicente” (pp. 70-71); Carl de Mello, “Apontamentos para a história fluminense” (1987); Anchieta (1565); Gabriel Soares de Sousa, “Tratado Descritivo do Brasil”.
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