O pirata enforcado nos Estados Unidos e o navio incendiado em Angra
O PIRATA ENFORCADO NOS ESTADOS UNIDOS E O NAVIO QUEIMADO EM ANGRA
Em dezembro de 1852, o brigue escravagista Camargo, de bandeira norte-americana e sob o comando de Nathaniel Gordon, desembarcou na foz do rio Bracuí, em Angra dos Reis, cerca de 500 africanos escravizados trazidos de Moçambique.
Roubado na Califórnia em 1851, o navio foi incendiado para eliminar provas — resposta à Lei Eusébio de Queirós (1850), que equiparou a importação de africanos à pirataria.
O desembarque foi na Fazenda Santa Rita, do comendador José de Souza Breves, ponto de recepção antes da distribuição às fazendas do Vale do Paraíba.
Em janeiro de 1853, polícia e Marinha patrulharam a região; quatro marinheiros presos confirmaram o desembarque. Documentos da Casa de Correção do Rio registram 73 africanos “apreendidos”; um balanço da investigação fala em 38 “recuperados” — vocabulário da época, que tratava pessoas como carga a restituir. Do presídio, seguiram para o trabalho compulsório reservado aos “africanos livres”: a Lei de 1831 os declarava livres, mas o Estado os manteve sob tutela por 14 anos, em obras públicas — liberdade precária que só acabou com a emancipação geral, em 1864.
Em fevereiro, o fazendeiro Manoel de Aguiar Vallim, da Fazenda Resgate, foi indiciado em Bananal por importação de africanos livres; José de Souza Breves, pronunciado em Angra por cumplicidade no contrabando. Ambos foram absolvidos pelos tribunais locais.
Gordon escapou e seguiu no tráfico. Em 1860, foi capturado no rio Congo comandando o Erie, com 897 africanos escravizados. Levado a Nova York, foi condenado pelo Piracy Act de 1820. Em fevereiro de 1862, Lincoln recusou a comutação, e Gordon foi enforcado no dia 21 — o único traficante executado nos EUA por esse crime.
Mais de 170 anos depois, as buscas começaram em 2022 guiadas pela memória do Quilombo de Santa Rita do Bracuí: foi o depoimento de Manoel Morais, gravado em 2006, que apontou onde procurar. Em dezembro de 2023, o projeto registrou no IPHAN dois sítios no estuário — um deles indicado pela tradição oral e por pescadores que conheciam o local havia décadas; o outro, achado por sonar. A identificação definitiva depende de análises.